sexta-feira, 13 de junho de 2008

Efeito Tostines?

Os relacionamentos existem porque a tecnologia dá resultado ou a tecnologia dá resultado porque os relacionamentos existem?

Para quem gosta de sociologia e matemática - ao mesmo tempo: Wagüe propôs o conhecimento (K) como uma função exponencial da somatória do fator humano (P) com as tecnologias de informação (I). A fórmula resultante é K = (P+I)S sendo o expoente (s) os relacionamentos.
A mesma pergunta e raciocínio podem ser feitos para metodologias de desenvolvimento? O associativismo existe porque a metodologia empregada dá resultado ou a metodologia dá resultado porque o associativismo existe? Se trocarmos o conhecimento (K) por desenvolvimento podemos dizer que o desenvolvimento depende dos relacionamentos? Eu acho que sim.

Colocado de uma maneira simplista como essa, o raciocínio pode não fazer muito sentido. Porém, quando se fala de grupos, associações, comunidades etc, “jogar” uma tecnologia (ou metodologia) “em cima” de um grupo de pessoas cujos relacionamentos sejam precários e esperar que ela dê os resultados esperados pelo simples fato que a tecnologia (ou metodologia) é participativa, colaborativa etc... é uma ilusão. A realidade sempre é muito complexa e dificilmente cabe nos pressupostos teóricos de uma metodologia ou nos atributos de uma ferramenta. Da minha parte, gastei 3 anos de trabalho e pesquisas para entender esse problema e confesso que ainda tenho dúvidas muito grande sobre o tema. Principalmente, porque a minha atribuição é ajudar grupos de empresários a articularem projetos colaborativos e também porque uso conscientemente metodologias participativas.

O problema é que APLs não são criados, apenas estimulados. Como conseqüência, podemos entender que, se você utilizar uma ferramenta tecnológica (ou uma metodologia) para trabalhar com instituições (no sentido da economia institucionalista) que já existam e funcionem, e desde que os objetivos se alinhem, provavelmente os resultados serão positivos. Porém, se o objeto alvo do seu trabalho não existe, por exemplo, o APL ou ainda, se no grupo de pessoas que é o seu público não há relacionamentos, então, provavelmente haverá dificuldades para obtenção de resultados... apesar das ferramentas ou metodologias serem colaborativas, participativas etc. Aqui é importante ressaltar que há resultados e resultados. Imagino que esse raciocínio não vale para interações de curta duração, por exemplo, onde o resultado esperado é disseminação da informação ou uma pequena ação (no sentido de sua duração).

Sobre redes, essa é uma questão mal resolvida do passado que retornou. Na minha defesa de dissertação em 2004, fui questionado pelo professor Klau Frey porque não havia abordado o conceito de rede, no seu ponto de vista muito mais atual e importante a partir Castells e tinha centrado no conceito de comunidade. De fato, a minha pesquisa centrou esforços no conceito de comunidade, sob vários pontos de vista. Desde o conceito sociológico clássico de Tonnies (Gemeinschaft und Gesellschaft), passando por outros, como por exemplo, economic community. Porém, centrei esforços na compreensão do conceito de comunidade de prática que, no meu ponto de vista, fornece uma série de insights sobre o funcionamento dos processos sociais, bem como fornece a possibilidade de fomentar processos de aprendizado. Por isso mesmo a pergunta ficou sem resposta.

Porém, hoje, dentro do espírito do GFAL, estou formulando a seguinte questão:
Pensando em sustentabilidade dos APLs, que são entidades locais e que, portanto, funcionam a partir de suas características de comunidades, que precisam articular projetos que lhes garantam sua sustentabilidade (pelo menos no curto e médio prazo), e que estes projetos seriam muito mais impactantes se envolvessem e atendessem todos os interessados no sucesso dos projetos, bem como dos APLs, seria possível ou desejável criar a partir das suas governanças, redes nos APLs e entre eles para que as pessoas pudessem contribuir nos mais diferentes momentos? E o principal, as governanças querem usar uma ferramenta tecnológica para facilitar o relacionamento dessas pessoas? E o os grupos estão preparados para usa-las?
Certamente essa será uma resposta que não teremos no GFAL. Mas acho que poderia ser um dos seus desdobramentos.

Aguardo comentários.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Perguntinha básica do Carmona

Para ser respondida terça-feira à noite: como os APL's podem contribuir melhor para a sustentabilidade como abordada pelo Global Forum? Antes de responder como é possível contribuir, podemos elaborar de outra forma: o que pode acontecer quando o tripé dos APLs (concentração, especialização e colaboração) encontra o tripé da sustentabilidade (econômica, social e ambiental)? Podemos ser mais precisos e tentar elaborar a real complexidade do situação: o que poderia acontecer quando os recursos (econômicos, financeiros, humanos...) das concentrações industriais do estado, com suas especializações produtivas (tecnologias, conhecimentos...), potencializadas pela colaboração entre empresários (empreendedores, responsáveis socialmente, inovadores...) e técnicos, professores, consultores, lideranças políticas, pesquisadores das entidades de apoio, estivessem a serviço do desenvolvimento econômico empresarial e regional, da melhoria da qualidade de vida e da conservação e preservação do meio ambiente?

A distância do que acontece e o que poderia acontecer é a mesma distância entre o tudo e o nada. Há locais onde não há relacionamentos, muito menos colaboração; há locais onde alguns perceberam o potencial do conceito APL para os negócios; há locais onde onde estão surgindo timidamente os primeiros projetos e, por fim, há locais onde a complexidade dos recursos começa a se alinhar através de articulações institucionais para a sustentabilidade da região.

Voltando a pergunta “como?”, posso fazer uma tentativa e ensaiar uma resposta. No meu ponto de vista, há duas possibilidades de atuação. A primeira, e mais importante porque pode ser realizada pelo Sistema, é trabalhar no sentido de fomentar não só os APLs mas outras concentrações e associações de empresários, devido a importância do setor produtivo para as localidades e regiões, a disponibilidade de recursos para projetos e o caráter pragmático dos empresários. Além disso, onde há um núcleo de empresários pensando e agindo colaborativamente pelo desenvolvimento, sempre é mais fácil propor ações mais complexas. Na minha opinião, enquanto Sistema e no que diz respeito aos APLs, ainda atuamos de forma reativa, e apesar dos enormes avanços obtidos, acabamos perdendo oportunidades quer seja de negócios quer seja de fomento a conceitos e projetos. Para não deixar de dar uma idéia prática, podemos imaginar a FIEP propondo um “Programa de APLs Sustentáveis”, via sindicato, que inicia com uma palestra e segue com três projetos: um econômico (SENAI), um social (SESI) e um ambiental (CETSAM). Quando e se o APL realizar estes três projetos recebe um certificado do tipo “aqui tem sustentabilidade!” para ser mostrado para clientes e fornecedores e sociedade em geral.

Uma outra possibilidade de como fazer que os APLs contribuam com a sustentabilidade de suas regiões é envolver a Rede APLs Paraná de Entidades Apoiadoras e promover a discussão do conceito objetivando a execução de ações em APLs. O que um trabalho de articulação institucional.

Falando em rede, o Carmona propõe “uma avaliação do uso das ferramentas de redes sociais que estarão disponíveis no GFAL (apresentadas ao Grupo Gestor do GFAL hoje) de forma a apoiar os APL's nessa e em outras tarefas”.

Acho a idéia fantástica, mas como gostaria de me alongar um pouco e, ao mesmo tempo não quero deixar essa postagem muito longa, deixo a segunda parte para amanhã.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Para os céticos

Brasil e Itália são duas realidades muito diferentes. Imaginar soluções práticas para as empresas brasileiras a partir da comparação entre distritos industriais italianos e arranjos produtivos locais brasileiros não é muito apropriado, dadas as diferenças existentes.

Porém, no momento que tocamos no assunto desenvolvimento, vemos que tanto os desafios empresariais italianos quanto os brasileiros têm uma abrangência global. Os distritos italianos são players globais e representam uma parcela muito grande da economia italiana – estudos mostram que alguns distritos italianos são maiores que muitas empresas multinacionais. Porém, após anos de dificuldades estão reformulando com êxito suas estratégias de atuação. As empresas brasileiras, ao mesmo tempo em que enfrentam a concorrência que vem de fora, têm no mercado mundial um potencial enorme de crescimento. Por isso, talvez fosse interessante fazermos benchmark da experiência italiana.

Para ficarmos dentro dos nossos propósitos e possibilidades, que é fomentar a discussão sobre os temas do GFAL do ponto de vista dos APLS, apresento a entrevista do presidente da Federação de Distritos industriais italianos dada para a EuroPA. A Federação é “protagonista” do evento Salão das Autonomias Locais que acontecerá em Rimini de 4 a 7 de Julho. No endereço http://www.euro-pa.it/interviste/terribile_p.htm você pode ver a entrevista integral.

Uma primeira questão, auxiliando os céticos na formulação de suas dúvidas, poderia ser: o que é que autonomia local (um dos problemas da Itália dada a centralização do poder em Roma) tem a ver com internacionalização de distritos (um dos objetivos da Federação de Distritos Industriais)? Mais: porque o entrevistador pergunta sobre “capacidade para agredir o mercado” (uma perspectiva estritamente comercial) e o presidente responde com:

“... desenvolver relações entre os operadores institucionais, econômicos culturais e científicos e também ações de sensibilização difusa sobre necessidades políticas para o desenvolvimento de sistemas locais e de redes.”

“... nasceu uma sociedade, onde a Federação é sócia majoritária, em parceria com a Universidade, que se chama Sintesi, a qual tem o objetivo de fazer inovação de produtos e de processos e desenvolvimento de patentes.”

“A internacionalização e a capacidade de agredir o mercado... (os distritos) obtêm com sinergia entre eles mesmos, colocando-se em condições de montar grupos, de criar redes entre eles.”

“...nosso trabalho se concentra em elaboração e articulação de projetos (progettualità). Um trabalho de campo, mas também no nível de relacionamentos.”

“... projetos conjuntos entre os distritos italianos e os distritos indianos, além da possibilidade de crias sociedades mistas.”

Considerando as diferenças entre distritos e APLs e reconhecendo a enorme importância econômica e social dos distritos industriais para a Itália, se entendermos o que – e porque a Federação dos Distritos Industriais defende tais estratégias para as empresas italianas – entenderemos como o GFAL pode contribuir para estratégias de desenvolvimento de nossas empresas.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

APLs e Sustentabilidade

Não há desenvolvimento sem inovação, não há inovação sem conhecimento, não há conhecimento sem aprendizado, não há aprendizado efetivo que não seja fundamentado na prática, não há prática sem relacionamentos, não há relacionamentos sem atores sociais.

Quando as tecnologias digitais mostraram o seu potencial para alavancar o desenvolvimento, alguns estudiosos apontaram para o abismo que poderia ser criado entre as sociedades que dispunham destas tecnologias e aquelas que não teriam condições dadas as carências no setor.

Chamaram isso de digital divided. Porém, devido a fracassos em iniciativas para o desenvolvimento, alguns estudiosos aprofundaram a questão e apontaram para outro problema: as condições que as diferentes sociedades apresentavam em termos de competências para realizar o aprendizado. Chamaram isso de learning divided, ou seja, uma divisão entre os países que conseguem promover um aprendizado efetivo e aqueles que, apesar dos esforços e recursos empregados, não conseguem resultados satisfatórios. Um exemplo, vindo do setor público, pode ser a questão da educação no Brasil, que segundo os resultados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) está entre os últimos colocados. Um exemplo genérico vindo do setor privado pode ser os poucos resultados obtidos com as grandes quantidades de recursos empregados em treinamento.

Uma maneira de ver os Arranjos Produtivos Locais (APLs) é percebê-los como estruturas para o aprendizado. Quando o Sistema FIEP encabeçou, juntamente com outras entidades, um movimento de fomento dos APLs no Estado do Parará, no meu ponto de vista, ficou claro que o projeto seria, acima de tudo, um processo de aprendizado.

Olhando o assunto por esta ótica, seria possível dizer que aqueles APLs que, apesar dos esforços, não conseguiram se viabilizar foram vítimas do learning divided. Porém, outros perceberam o desafio do desenvolvimento e buscaram sustentabilidade para seus negócios e suas regiões iniciando um processo de aprendizado sobre a questão. Caso, por exemplo, do APL de Metais Sanitários que além de organizar o setor através de uma associação, deu a esta o caráter de agência regional de desenvolvimento ou do APL de Confecções do Sudoeste que tem um projeto enorme na área da Saúde da Mulher.

Para os APLs, a iniciativa de promover a adequação de currículos de determinados cursos para a questão da sustentabilidade faz todo o sentido dentro do contexto de dificuldades que os APLs enfrentam. Responder a pergunta formulada por Augusto de Franco - Por que uma empresa deveria perder tempo, mudar ou ampliar o foco principal de suas preocupações estratégicas e gastar preciosos recursos para mexer com coisas que, aparentemente pelo menos, não aumentam o retorno sobre seus investimentos, como desenvolvimento local e setorial, redes e democracia, voluntariado e política? - também é fundamental. Aliás, a minha resposta é: Para iniciar um processo de aprendizado individual, organizacional e social que irá desembocar em conhecimento, inovação e desenvolvimento.

Porém, também seria interessante propor aos empresários, técnicos, professores e lideranças que atuam junto aos APLs que também opinassem sobre a questão da sustentabilidade do seu setor e da sua região. Que falassem das experiências realizadas e quais as dificuldades enfrentadas. Que nos dissessem para onde a visão de futuro aponta, em termos de desafios tecnológicos, ambientais e sociais. Quais são as forças existentes no setor e região? Quem deveria participar e ainda não participa? Como viabilizar o envolvimento da Academia?

A minha proposta é tornar visível uma comunidade de prática, do ponto de vista dos APLs do Paraná, para apontar para algumas questões sobre sustentabilidade. Isso acontecerá com uma pequena participação dos envolvidos. Se isso acontecer, poderemos dar uma contribuição muito positiva para este importantíssimo esforço de aprendizado para o desenvolvimento que é o Global Fórum LA.

Abraços.